A Bíblia: Palavra de Deus em palavras humanas

"Deus é Espírito, e importa que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade." (João 4,24)

Antes de iniciar o estudo da Bíblia, é importante compreender o que ela é e, igualmente, o que ela não é.

A Bíblia não é um livro único. É uma coleção de livros escritos por diferentes autores, em épocas, lugares e circunstâncias distintas. Embora esses livros formem uma unidade, cada um possui sua própria linguagem, seus objetivos e as marcas da cultura em que foi produzido.

Os cristãos creem que esses autores escreveram inspirados pelo Espírito de Deus. Entretanto, essa inspiração não transformou os escritores em simples instrumentos que apenas copiaram palavras ditadas por Deus. Deus não anulou sua inteligência, sua personalidade, sua cultura nem sua liberdade. Pelo contrário, revelou sua vontade por meio delas.

Isso significa que, nas Escrituras, encontramos duas realidades caminhando juntas: a revelação de Deus e sua expressão humana.

Essa distinção é fundamental.

Imagine que a luz do Sol atravesse um vitral colorido. A luz continua sendo a mesma, mas chega aos nossos olhos através das cores do vidro. Da mesma forma, a verdade de Deus chega até nós por meio da linguagem, da cultura e da compreensão daqueles que escreveram os textos bíblicos. A luz é divina; o vitral é humano. Assim também, a mensagem é divina, mas sua forma de comunicação é humana. Todo texto humano carrega a compreensão, a linguagem e até as limitações de quem o escreveu.

Por essa razão, a Bíblia contém tanto princípios eternos quanto elementos próprios da época em que cada livro foi escrito. Nem tudo o que está registrado nas Escrituras representa um mandamento permanente para todas as pessoas e para todos os tempos. Muitos textos descrevem costumes, formas de organização social, práticas religiosas e maneiras de pensar que pertenciam ao contexto histórico de seus autores.

É justamente aqui que nasce um dos maiores desafios da leitura bíblica.

Quando o leitor não distingue a mensagem de Deus da forma humana pela qual ela foi comunicada, corre o risco de transformar costumes antigos em verdades eternas. Nesse momento, deixa de procurar o Espírito da Escritura e passa a prender-se apenas à letra do texto.

Foi exatamente esse o problema enfrentado por Jesus.

Em seu tempo, muitos líderes religiosos conheciam profundamente as Escrituras. Sabiam citar a Lei, conheciam as tradições e observavam cuidadosamente os rituais. Mesmo assim, não conseguiam reconhecer aquilo que Deus realmente desejava.

Por isso, Jesus perguntava frequentemente: "Nunca lestes...?" Não porque aquelas pessoas fossem incapazes de ler, mas porque ainda não haviam compreendido o verdadeiro sentido do que liam.

Quando afirmou: "Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim revogar, mas cumprir" (Mateus 5,17), Jesus não declarou que tudo deveria permanecer exatamente como estava escrito. Revelou, antes, o sentido pleno das Escrituras, mostrando aquilo para o qual elas sempre apontaram.

Durante todo o seu ministério, Jesus ensinou que o ser humano vale mais do que os rituais e que o amor está acima das formalidades religiosas. Ao dizer que "o sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado" (Marcos 2,27), mostrou que as normas existem para servir à vida, e não para escravizá-la.

Da mesma forma, resumiu toda a Lei em apenas dois mandamentos: amar a Deus e amar o próximo (Mateus 22,37-40). Isso significa que todos os demais ensinamentos da Bíblia devem ser compreendidos à luz desse princípio maior.

É por isso que o estudo da Bíblia não consiste apenas em conhecer histórias, decorar versículos ou aprender regras religiosas. Estudar a Bíblia é aprender a discernir os princípios espirituais que permanecem válidos em qualquer cultura e em qualquer época.

As culturas mudam.

Os idiomas mudam.

Os costumes mudam.

As sociedades mudam.

Mas Deus não muda.

Sua verdade permanece, ainda que a forma de comunicá-la acompanhe a história da humanidade.

É essa compreensão que nos protege de dois erros igualmente perigosos:

O primeiro é pensar que tudo o que está escrito deve ser reproduzido literalmente, sem considerar o contexto em que foi escrito.

O segundo é imaginar que, por existirem elementos culturais na Bíblia, ela tenha perdido seu valor espiritual.

Nenhum desses extremos faz justiça às Escrituras.

A Bíblia continua sendo inspirada por Deus e permanece como o principal testemunho de sua revelação. Contudo, deve ser lida com discernimento, procurando sempre compreender qual princípio eterno está sendo comunicado por meio das palavras humanas.

Foi exatamente para isso que Cristo veio.

O Evangelho afirma que "o Verbo se fez carne" (João 1,14). Em Jesus, a Palavra de Deus deixou de ser apenas anunciada pelos profetas e tornou-se visível na própria vida. Ele não apenas explicou as Escrituras; viveu aquilo que elas anunciavam.

Depois de sua ressurreição, caminhando com dois discípulos na estrada de Emaús, Jesus começou por Moisés e por todos os Profetas e explicou-lhes tudo o que as Escrituras diziam a seu respeito (Lucas 24,27). Esse episódio ensina um princípio essencial para todo estudante da Bíblia: as Escrituras devem ser lidas a partir de Cristo, porque é nele que sua mensagem encontra unidade e sentido.

Por isso, ao longo deste livro, nosso objetivo não será apenas compreender o que os autores bíblicos escreveram. Buscaremos, sobretudo, discernir o que Deus comunica por meio desses escritos.

Aprenderemos a olhar além das palavras para encontrar a Palavra; além da cultura para encontrar o princípio; além da letra para encontrar o Espírito.

Somente assim a leitura da Bíblia deixará de ser um simples acúmulo de informações religiosas e se tornará verdadeira religião, no sentido mais profundo da palavra: um caminho de religação entre o ser humano e Deus, uma experiência de transformação da vida pela ação do Espírito.